Se a música é realmente um alimento para alma e um instrumento de transformação social, ninguém melhor do que os integrantes da Orquestra Sinfônica Kimbanguista (OSK) para confirmar a teoria. O talento e a história de vida desses músicos que vivem na cidade de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, emocionaram o mundo ao serem transformados em um filme.
O documentário "Kinshasa Symphony", produzido pelos alemães Claus Wischmann e Martin Baer teve sua premiere em 2010, durante o Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) e já arrebatou vários prêmios da crítica alemã e internacional.
O filme de 95 minutos mostra o cotidiano da única orquestra sinfônica da África subsaariana criada há 15 anos pelo regente Armand Diangienda, neto do mártir congolês e fundador da igreja Kimbanguista, Simon Kimbangu.
Mais de 200 instrumentistas e cantores formam a OSK
Para concretizar o projeto, os dois alemães acompanharam os músicos durante um ano e o resultado gerou um filme que, como os próprios diretores definem, aborda não apenas a música, mas fala do país e das pessoas na Kinshasa de 10 milhões de habitantes.
Em 15 anos de existência, a orquestra já sobreviveu dois golpes militares, uma guerra e várias crises. No entanto, as dificuldades do cotidiano enfrentadas por músicos autodidatas que sobrevivem como carpinteiros, vendedores ambulantes, eletricistas, entre outros ofícios, talvez seja o aspecto mais comovente para quem passa a conhecer a história do grupo.
Improvisação sempre foi a palavra de ordem dentro da orquestra. Um aspecto que o luthier autodidata Albert Matubanza conhece muito bem. Ele é o responsável pela fabricação e reparo dos modestos instrumentos que os músicos possuem. Albert usou a curiosidade e o talento, por exemplo, para fabricar contrabaixos a partir do único modelo existente no país após a guerra civil.
Mesmo com todas as dificuldades, a qualidade do trabalho em Kinshasa é capaz de comover as mais renomadas ensembles da Europa. No repertório, clássicos que vão de Bolero de Ravel a Nona Sinfonia de Beethoven. Junto com os instrumentistas, as vozes do coro formam o grupo com mais de 200 integrantes.
A arte em contraste com a pobreza presente na RDC
Com o sucesso do documentário, o dia a dia improvisado da Sinfônica Kinbanguista parece estar com os dias contatos. Desde a estreia do filme nos cinemas alemães, as doações financeiras de apoio à orquestra africana não param. Uma página na internet também foi criada para que expectadores comuns pudessem ajudar. O resultado foi surpreendente.
Desde que se tornou conhecida, orquestras do mundo inteiro tentam fazer contato com a OSK. Convites para apresentações na Europa, doações de instrumentos e workshops de aperferçoamento musical não param de chegar. O regente Diangienda enfatiza, porém, que o apoio de fora não deve significar uma ajuda de caridade, mas principalmente um interesse e reconhecimento pelo trabalho do grupo.
No trailer do filme, os trechos da cantata de Carl Orff interpretadas pelo coro já são suficientes para emocionar mesmo quem não tem interesse por música clássica. Tomara que, assim como em Carmina Burana, as rodas da fortuna também girem a favor dos músicos de Kinshasa. Por uma questão de merecimento...